"Os filhos deviam vir com manual de instruções" - disse-me o meu pai inúmeras vezes e eu, agora, concordo. Acontece que não vêm e se a experiência dos outros pode ser útil em alguns casos, noutros de pouco ou nada me serve. Cada criança é um caso e temos que fazer o que nos manda o coração, em cada um deles, por pouco adequado que às vezes possa parecer.
A Matilde largou a chucha pouco depois de fazer dois anos. Proporcionou-se assim e nós aproveitámos. Ela tinha ido passar a noite a casa da avó e, por esquecimento nosso, quando chegou a hora de dormir não havia chucha. A minha sogra inventou uma história qualquer, sobre um rato que tinha comido a chucha dela e ela adormeceu sem dramas. Chegada a casa, quisemos aproveitar a deixa. Guardámos todas as chuchas e dissemos-lhe o mesmo: "o rato maroto comeu a tua chucha!". Não chorou, não fez birras. Nas primeiras noites repetiu o mantra "o rato comeu a minha chucha, oh... que chatice!" vezes sem conta até adormecer e depois passou. MAS, passados dois meses, descobriu o dedo. Começou sem darmos conta e quando estava com sono ou depois de chorar, lá ia o dedo parar à boca (a técnica de trocar a chucha ou o dedo por um "amiguinho" estava fora de questão porque ela já usava um "amiguinho" desde que nasceu). Começou a adormecer sempre assim e pronto, instalou-se o vício. Não chuchava durante o dia, a não ser que estivesse mais "carente", mas mesmo assim começámos a notar que estava a acontecer o que já tinha lido: os dentinhos de cima estavam a vir para fora e os de baixo a ir para dentro. A distancia entre os dentes de cima e os de baixo está bastante maior que há vários meses atrás.
Tentámos fazer com que deixasse de chuchar com os argumentos habituais: "estás a ficar crescida, quem chucha no dedo são os bebés", "olha aqui, estás a ficar com os dentinhos todos tortos", "estás a ficar com dói-dói no dedo, não podes chuchar" e até apelámos ao lado vaidoso dela "assim não podes pintar as unhas, porque chuchas no dedo e ficam todas estragadas!", mas nada resultou.
Até que uma noite, depois de lhe lavar os dentes e voltar a reparar nos dentinhos dela, cedi: "Se a mamã te der uma chucha, prometes que não chuchas mais no dedo?" Os olhinhos dela até brilharam e respondeu-me: "Sim." Fui buscar uma chucha, dei-lha e até fiquei com o coração apertadinho, ao ver a ansiedade com que ela pegou nela e a meteu à boca. Deu meia volta e foi-se enfiar na cama, a segurar na chucha com as duas mãos. Combinámos que a chucha era SÓ para dormir, que não sairia do quarto e que, para falar, se tira a chucha da boca. Quando lhe dei um beijinho de boa noite, tirou a chucha: "Gosto MUITO de ti, mamã!" mesmo em tom de quem diz "Obrigada!".

Não sei se o que fiz foi correcto ou não. Quando perguntei à médica se achava que lhe deveria voltar a dar a chucha a resposta foi curta: "não". Talvez tenha sido "andar para trás" e sinto-me um bocado culpada por isso. Quando outras pessoas reparam que ela voltou a usar a chucha de noite desfaço-me em 1001 justificações. Mas fiz o que o coração mandou. Nunca mais voltou a chuchar no dedo enquanto está connosco (na escola parece que o faz um bocadinho, para dormir a sesta) e, se nos primeiros dias fez algumas birras porque queria andar com ela durante o dia, tais eram as saudades, agora já está bem claro que a chucha é para dormir. Tanto que quando tem sono, em vez de se encostar a chuchar no dedo como fazia, diz-nos que quer ir para a cama dormir e pôr a chucha. Honestamente, prefiro que ela chuche de noite na chucha, que várias vezes ao dia, no dedo. Quero acreditar que quando chegar a hora ela vai deixar de a querer, sem que para isso compense com o dedo... a ver vamos! :)